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Porque é que, com a idade, voltamos à criança que fomos

Porque é que, com a idade, voltamos à criança que fomos
Georgia Gonçalves

Uma música antiga, um cheiro, uma fotografia: com os anos, as memórias da infância ganham outro peso. A ciência explica porquê, e mostra que isso pode ser uma forma saudável de envelhecer.

Uma canção que passa na rádio e, de repente, estamos de volta à cozinha da avó. O cheiro de pão acabado de cozer, uma fotografia amarelada, o nome de um brinquedo que já não se fabrica. Quem tem mais de 50 anos conhece bem esta sensação: à medida que o tempo passa, as memórias da infância parecem ficar mais nítidas, mais presentes e mais preciosas. Longe de ser um capricho da idade, este fenómeno tem uma explicação científica.

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O tempo muda as prioridades do cérebro

A chave está numa teoria desenvolvida pela psicóloga Laura Carstensen, da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, conhecida como Teoria da Selectividade Socioemocional. A ideia central é simples: quando sentimos que temos o futuro todo pela frente, damos prioridade a objectivos de longo prazo, como aprender, conhecer gente nova ou construir uma carreira. Quando o horizonte temporal parece encurtar, o cérebro recalibra as prioridades e passa a valorizar sobretudo o que tem significado emocional.

É nesse contexto que a infância volta a ganhar importância. Não como fuga, mas como recurso. «Quando envelhecemos, não estamos apenas a acumular anos. Estamos a modificar a nossa relação psicológica com o tempo», explica o investigador Fabiano de Abreu Agrela, que tem estudado o tema. «Uma música antiga pode ser muito mais do que uma música. Um cheiro ou uma fotografia podem reactivar uma configuração emocional inteira.»

Nostalgia não é regressão

Há uma distinção importante a fazer. Uma coisa é alguém adoptar comportamentos que não correspondem à sua maturidade. Outra, muito diferente, é recuperar voluntariamente emoções e experiências de uma fase anterior da vida. Quando uma pessoa mais velha se ri de uma coisa simples, brinca com os netos como se tivesse a idade deles ou fala durante horas sobre um Verão vivido aos oito anos, isso não significa que esteja a regredir. Pode ser, pelo contrário, uma forma de se reencontrar com a própria identidade.

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A investigação sobre a nostalgia, desenvolvida nas últimas décadas por universidades europeias e norte-americanas, aponta no mesmo sentido: recordar o passado com carinho tende a reforçar o sentido de continuidade da vida, a sensação de pertença e a ligação aos outros. É por isso que a chamada terapia de reminiscência, que usa fotografias, músicas e objectos antigos para estimular a memória, é hoje utilizada em muitos lares e centros de dia.

O que a ciência ainda não diz

Convém, ainda assim, não exagerar. Não há provas de que «voltar à infância» prolongue a vida. O que a ciência permite dizer é que experiências com significado emocional estão associadas a mais bem-estar e a uma melhor regulação das emoções, dois ingredientes importantes de um envelhecimento saudável. Se o cérebro encontra formas de preservar significado e estabilidade emocional, a experiência de envelhecer pode tornar-se psicologicamente mais leve.

Como tirar partido destas memórias

Há gestos simples que ajudam. Organizar as fotografias antigas, de preferência com os filhos ou os netos, e contar a história de cada uma. Fazer uma lista das músicas que marcaram a juventude e ouvi-las com tempo. Voltar à aldeia, à escola primária ou à praia de infância. Cozinhar as receitas da mãe ou da avó e passá-las a escrito para a geração seguinte.

Todos estes gestos têm um efeito duplo: fazem bem a quem recorda e criam uma ponte com quem ouve. Afinal, a criança que fomos não desaparece com os anos. Fica à espera de ser chamada, e cada vez que regressa traz consigo um bocadinho da alegria de antigamente.

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