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Anemia depois dos 65: o cansaço que não é da idade

Anemia depois dos 65: o cansaço que não é da idade
Rogério Junior

Mais de um em cada dez portugueses com 65 ou mais anos tem anemia, e o erro mais comum é tratá-la com um suplemento de ferro sem descobrir de onde vem. A anemia não é um diagnóstico, é um sinal.

Cansaço que não passa com o descanso, falta de ar a subir escadas que antes se subiam sem pensar, palidez, tonturas ao levantar, batimentos acelerados, dificuldade de concentração. É um conjunto de queixas que costuma ser arrumado com uma frase, a de que já não se tem idade para mais, e que corresponde muitas vezes a uma anemia por diagnosticar.

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Mais de 10% das pessoas com 65 ou mais anos tem anemia, e o número sobe com a idade. Convém deixar isto assente logo de início: a anemia nunca é normal por causa da idade. Envelhecer não faz baixar a hemoglobina. Quando ela baixa, há uma razão, e essa razão pode ser tão banal como a alimentação ou tão séria como uma hemorragia que ninguém viu.

A anemia é um sinal, não um diagnóstico

É esta a ideia que muda a conduta. Descobrir a anemia é o princípio da investigação e não o seu fim, e o erro mais frequente, cometido às vezes com a melhor das intenções, é começar a tomar um suplemento de ferro comprado na farmácia e dar o assunto por resolvido. O suplemento pode corrigir o valor da análise e mascarar durante meses aquilo que está a causar a perda.

A causa mais comum é a falta de ferro, e nos adultos mais velhos a falta de ferro resulta frequentemente de perdas de sangue lentas e invisíveis no aparelho digestivo. Uma úlcera, uma gastrite associada a anti-inflamatórios tomados durante anos, pólipos, e também lesões que interessa apanhar cedo. Não se vê sangue nenhum, porque a perda é mínima ao dia e enorme ao fim de meses.

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A segunda causa importante é a falta de vitamina B12 ou de ácido fólico, e esta merece atenção especial. A carência de B12 é frequente nesta idade, é muitas vezes esquecida e não se limita ao sangue: pode provocar formigueiros, alterações do equilíbrio, confusão e falhas de memória, sintomas que se confundem com demência e que podem tornar-se irreversíveis se demorarem a ser corrigidos. É também mais provável em quem toma determinados medicamentos de forma prolongada, incluindo protetores gástricos e antidiabéticos orais, motivo pelo qual vale a pena rever a medicação toda.

Há ainda a anemia associada a doença crónica, comum na doença renal, na inflamação persistente e na insuficiência cardíaca, e situações relacionadas com a própria medula óssea, menos frequentes mas que exigem outro tipo de investigação.

O que esperar da consulta

O caminho é o médico de família e o exame inicial é um hemograma completo, ao qual se juntam habitualmente o ferro, a ferritina, a vitamina B12 e o ácido fólico. É a combinação destes valores que orienta o passo seguinte, porque o tamanho dos glóbulos vermelhos aponta desde logo para famílias de causas diferentes.

Conforme o resultado, poderá ser pedida pesquisa de sangue oculto nas fezes, avaliação da função renal ou observação por gastrenterologia. Levar a lista de toda a medicação, incluindo o que se compra sem receita, encurta o caminho, e vale a pena mencionar alterações no funcionamento do intestino ou perda de peso, mesmo que pareçam não ter relação com o cansaço.

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Quem se revê nestas queixas pode pedir a análise na próxima consulta ou marcar uma através do SNS 24. Ferro por conta própria, sem saber de onde vem a anemia, é a única coisa a não fazer.