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As quadras que os avós sabiam de cor (e que vale a pena voltar a dizer)

As quadras que os avós sabiam de cor (e que vale a pena voltar a dizer)
Rogério Junior

Quatro versos, sete sílabas e a vida toda lá dentro: a quadra popular foi durante séculos a poesia de toda a gente. Do manjerico ao grupo da família, continua viva, e vale a pena voltar a dizê-la.

Havia um verso para tudo. Para o namoro e para a saudade, para o santo da terra, para a pontada de humor ao vizinho. Os avós não decoravam poesia: viviam com ela, em quadras ditas ao serão, cantadas ao trabalho e copiadas a custo para cadernos e cartas de amor.

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A poesia de toda a gente

A quadra popular é a forma mais democrática da literatura portuguesa: quatro versos de sete sílabas, rima no segundo e no quarto, e a vida inteira lá dentro. Não precisa de livro nem de autor. Passa de boca em boca, cada terra afeiçoa-a à sua maneira, e quem a diz pode mudar um verso aqui, um nome ali, que a quadra segue caminho, sempre igual e sempre nova.

Os estudiosos do século XIX encheram cancioneiros com milhares delas, recolhidas de gente que não sabia ler nem escrever. É um dos maiores tesouros da língua, e foi construído por anónimos.

Duas para aquecer a memória

Valha como amostra a mais famosa das quadras de amor perdido: «O anel que tu me deste / era vidro e quebrou-se; / o amor que tu me tinhas / era pouco e acabou-se.» Ou esta, de quem atirava indiretas com pontaria: «Atirei um limão de ouro / ao ar, por experimentar; / o limão caiu ao chão, / os meus olhos no teu olhar.»

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Quem as leu em voz alta e lhes sentiu a música conhece o segredo: a quadra decora-se sem querer, como as canções. E há as de rir, feitas para as cantigas ao desafio, em que cada terra gaba o que é seu e pica a vizinha do lado, sem outra maldade que não seja a graça.

Do manjerico ao grupo da família

A tradição não morreu, mudou de casa. As marchas de Santo António saem todos os anos com quadras novas, os manjericos de junho continuam a levar a sua bandeirinha rimada e as festas de aldeia mantêm as cantigas ao desafio, em que a quadra é arma e escudo ao mesmo tempo.

Depois há a vida de todos os dias, onde as quadras sempre trabalharam: o postal de aniversário, a legenda do álbum de fotografias, e agora a mensagem de bom dia no grupo da família. Uma quadra certa vale por um discurso, e quem cresceu a ouvi-las tem sempre uma na ponta da língua. As mais antigas guardam palavras que já ninguém usa, e dizê-las aos netos é abrir-lhes uma janela para o português que se falava antes de nós.

Onde reencontrá-las

Para matar saudades ou aprender de novo, o ditos.pt, um arquivo português de cultura popular, reúne as quadras populares, do povo e novas, arrumadas por temas, do amor à saudade e ao humor. Estão na grafia de hoje e podem copiar-se para onde for preciso. Papel e caneta também servem: um caderno de quadras é herança que se deixa.

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A sugestão é simples: escolher uma e dizê-la em voz alta ao jantar de domingo. O mais certo é alguém à mesa responder com outra, e a conversa fazer-se sozinha. Era assim que os avós faziam, e continua a funcionar.