Poucos gestos tornam a chegada de um bebé tão real como arrumar a mala da maternidade. É também um dos momentos que mais dúvidas levanta: o que levar mesmo, quantas mudas de roupa preparar e se será preciso seguir à risca as listas intermináveis que circulam na internet. A resposta curta é que não existe uma mala perfeita, nem uma mala igual para todas as famílias. Existem, isso sim, alguns essenciais que tornam os primeiros dias mais tranquilos para a mãe, para o bebé e também para quem acompanha.
Quem o explica é Ana Domingos, enfermeira especialista em Saúde Materna e Obstétrica, com mais de uma década de acompanhamento a mulheres e famílias, da gravidez ao pós-parto. Fundadora do projeto Babies Everywhere (criado em 2020) e autora do método “Nascer com Amor”, tornou-se enfermeira especialista independente em 2024, mantendo a ligação à prática hospitalar através de turnos no Serviço de Urgência Obstétrica e Ginecológica e no Bloco de Partos do Hospital Beatriz Ângelo.
A altura certa para preparar a mala
A recomendação da especialista é clara: entre as 30 e as 35 semanas de gravidez. Não por se esperar que o bebé nasça antes do previsto, mas porque antecipar esta tarefa permite viver as últimas semanas com mais calma e evita correrias de última hora. Há ainda um lado simbólico nesta preparação, que funciona como uma forma de criar ligação com o bebé e de se aproximar do encontro que se avizinha.
Antes de qualquer checklist, fica a ressalva de que a arrumação é uma escolha de cada família. “Não existe uma forma certa de organizar a mala da maternidade. Há famílias que preferem uma única mala para todos, outras optam por uma mala para os pais e uma para o bebé. No entanto, costumo recomendar que exista também uma pequena bolsa específica para o bloco de partos. O mais importante não é o número de malas, mas sim que tudo esteja organizado de forma simples e acessível, para que consigam encontrar rapidamente aquilo de que precisam”, explica Ana Domingos.
O que levar para a mãe
Nos primeiros dias depois do parto, a palavra de ordem é conforto. A lista essencial inclui:
- Produtos e objetos de higiene pessoal
- 3 camisas de noite ou pijamas confortáveis, preferencialmente abertos à frente
- Robe
- Chinelos
- Soutiens de amamentação
- Cuecas de algodão, descartáveis ou cueca-fralda
- Pensos pós-parto (se usar cuecas de algodão ou descartáveis)
- Bálsamo para mamilos
- Peribottle
- Elástico para o cabelo (se fizer sentido)
- Telemóvel e carregador com cabo comprido e/ou power bank
- Roupa e calçado confortável para o dia da alta
- Saco para roupa suja
Convém lembrar que o corpo continua em recuperação depois do nascimento e que, na maioria dos casos, a barriga não desaparece de imediato. Daí a insistência em roupa confortável e prática, que costuma ser a melhor escolha.
Documentos a não esquecer
- Cartão de Cidadão
- Boletim de Saúde da Grávida
- Exames recentes da gravidez
- Plano de parto (caso exista)
- Cartão de seguro ou subsistema de saúde (quando aplicável)
O que levar para o bebé
Aqui, o excesso é a regra mais comum. Como a maioria dos internamentos é relativamente curta, o essencial costuma bastar:
- Primeira roupinha do bebé
- 3 a 4 conjuntos completos organizados em saquinhos individuais (cada conjunto pode incluir body, calças interiores, babygrow, gorro e meias)
- 2 mantinhas ou swaddles
- Fraldas de recém-nascido
- 1 pack de toalhitas
- 3 fraldas de pano
- Estojo de higiene do bebé: escova macia, lima de cartão ou elétrica e creme de banho (se optar por dar banho no hospital)
- Toalha de banho (se optar por dar banho no hospital)
A sugestão que a enfermeira costuma deixar às famílias é a de separar cada conjunto do bebé em saquinhos individuais. Além de simplificar a organização, ajuda quem estiver a apoiar nos cuidados ao bebé a encontrar depressa aquilo de que precisa.
E o acompanhante?
É a mala de que quase ninguém se lembra, apesar de o acompanhante passar longas horas na maternidade. Também deve ter a sua preparada, com:
- Cartão de Cidadão
- Produtos básicos de higiene
- Pijama ou muda de roupa confortável
- Chinelos
- Telemóvel e carregador
- Água e snacks
Há ainda um pormenor que Ana Domingos faz questão de sublinhar sempre: o acompanhante deve saber onde estão guardadas todas as malas. Parece um detalhe menor, mas no dia em que o trabalho de parto começa pode fazer toda a diferença.
A pequena bolsa para o bloco de partos
Este é, provavelmente, o ponto mais esquecido de todos. Como na maioria das maternidades não é possível levar a mala completa para o bloco de partos, compensa preparar à parte uma bolsa pequena com os essenciais:
- Saco com a primeira roupinha do bebé
- Garrafa de água
- Elástico
- Spray de água termal
- Batom hidratante
- Pastilhas de mentol e/ou pente de madeira
- Telemóvel e carregador (cabo comprido)
Segundo a especialista, a garrafa de água, o spray de água termal e o batom hidratante são três dos itens mais esquecidos e, muitas vezes, dos mais agradecidos. Já as pastilhas de mentol e o pente de madeira costumam gerar estranheza. Apesar de parecerem objetos improváveis numa mala da maternidade, há grávidas que gostam de os utilizar durante as contrações, como estratégia de conforto e de foco. São pequenas ferramentas que podem ajudar a direcionar a atenção e tornar o trabalho de parto mais confortável para algumas mulheres.
Menos é mais
O receio de esquecer algo importante é uma das maiores preocupações das grávidas. Curiosamente, o que a enfermeira observa com mais frequência é exatamente o contrário: malas demasiado cheias.
“Costumo dizer às famílias que estão a preparar uma mala para o hospital e não para férias. A maioria das maternidades disponibiliza vários materiais e, na prática, muitas famílias acabam por utilizar apenas uma parte daquilo que levam. O mais importante é focar-se no essencial, organizar tudo de forma simples e confirmar sempre as recomendações específicas da maternidade onde o parto irá acontecer”, reforça Ana Domingos.
O mais importante não cabe na mala
Preparar a mala conta, mas há algo que, para a especialista, conta ainda mais: preparar o que vem a seguir. Saber o que esperar dos primeiros dias com o bebé, conhecer os cuidados básicos ao recém-nascido, preparar a amamentação e pensar no pós-parto são passos que mudam a forma como toda esta fase é vivida.
Como resume Ana Domingos, a mala acompanha a mulher até à maternidade, mas a preparação para o pós-parto acompanha-a muito para além dela.











