A bula fala em tomar com ou sem alimentos, mas raramente explica que alguns alimentos concretos alteram mesmo a forma como o corpo absorve ou elimina um medicamento. As consequências vão desde perder efeito até acumular o fármaco em excesso.
1. Toranja
É o exemplo mais conhecido. A toranja e o seu sumo bloqueiam uma enzima que participa na eliminação de vários medicamentos, incluindo algumas estatinas, determinados anti-hipertensores e outros fármacos. O resultado pode ser uma concentração mais elevada do que a pretendida. O efeito dura horas, pelo que espaçar a toma não resolve.
2. Leite e lacticínios
O cálcio pode reduzir a absorção de alguns antibióticos, nomeadamente das famílias das tetraciclinas e das quinolonas, e também de suplementos de ferro. Nestes casos, a regra habitual é espaçar duas horas entre o medicamento e o lacticínio ou suplemento de cálcio.
3. Vegetais ricos em vitamina K
Couves, brócolos, espinafres e nabiças influenciam o efeito da varfarina. A recomendação não é evitá-los, é manter um consumo constante ao longo das semanas e fazer os controlos analíticos com a regularidade indicada. Grandes variações são o que desregula os valores.
4. Álcool
Interage com muitos medicamentos. Potencia a sedação de calmantes, ansiolíticos, alguns antidepressivos e anti-histamínicos, aumenta o risco de hemorragia digestiva com anti-inflamatórios e sobrecarrega o fígado quando associado ao paracetamol em doses altas. Com alguns antibióticos, provoca reacções desagradáveis, com rubor, náuseas e palpitações.
5. Café e chá
Os taninos do chá reduzem a absorção do ferro. A cafeína pode somar-se ao efeito de determinados medicamentos e agravar palpitações e insónia. Em quem toma medicação para a tiroide, a recomendação é tomar o comprimido em jejum, com água, e esperar pelo menos meia hora antes do pequeno-almoço, incluindo café.
6. Sumo de arando
Popular na prevenção de infecções urinárias, tem sido associado a alterações do efeito de anticoagulantes quando consumido em grandes quantidades. Em doses ocasionais não costuma levantar problemas, mas convém mencioná-lo ao médico.
7. Fibra e suplementos
Suplementos de fibra e laxantes de volume podem reduzir a absorção de medicamentos tomados ao mesmo tempo. Também aqui, espaçar as tomas resolve a maior parte dos casos.
Regras práticas que evitam quase tudo
Tomar os comprimidos com um copo cheio de água, e não com sumo, leite ou café, salvo indicação em contrário. Respeitar a indicação de jejum ou de refeição que consta na bula. Espaçar suplementos de cálcio, ferro e magnésio dos restantes medicamentos.
E, sobretudo, levar a lista completa, incluindo produtos naturais e vitaminas, a todas as consultas. A maioria das interacções relevantes é conhecida e fácil de contornar: o problema começa quando o médico não sabe o que a pessoa está realmente a tomar.
Erva-de-são-joão e outros produtos naturais
Não é um alimento, mas merece referência nesta lista por ser vendida livremente e ter interacções relevantes: reduz o efeito de anticoagulantes, de alguns medicamentos cardíacos e de determinados antidepressivos. O alho em cápsulas, o ginkgo e o ginseng entram no mesmo capítulo.
Em caso de dúvida, o farmacêutico responde
As bases de dados de interacções são consultadas em segundos ao balcão de qualquer farmácia. Antes de mudar hábitos alimentares por conta própria, ou de deixar de tomar um medicamento porque leu que não combina com determinado alimento, pergunte. Muitas das interacções descritas resolvem-se apenas com um intervalo de duas horas entre a refeição e o comprimido.











