Poucos suplementos são tomados com tanta convicção e tão pouca discussão como a vitamina D. A ideia instalada é que protege os ossos e previne fraturas. O maior ensaio clínico feito sobre o assunto chegou a uma conclusão diferente, e vale a pena perceber exatamente o que diz e o que não diz.
O ensaio VITAL
Foi um ensaio clínico aleatorizado com 25.871 participantes, metade mulheres, com uma média de idades de 67,1 anos. Trata-se de pessoas saudáveis, não selecionadas por terem osteoporose ou défice de vitamina D.
Metade recebeu 2000 unidades internacionais diárias de vitamina D3, a outra metade recebeu placebo.
A conclusão foi que a suplementação não reduziu o risco de fraturas na população estudada.
O que isto não significa
É aqui que a leitura costuma descarrilar, e os próprios autores fizeram questão de o assinalar. Os resultados não são extrapoláveis para vários grupos.
Não se aplicam a pessoas com osteoporose diagnosticada. Não se aplicam a pessoas com osteomalácia. Não se aplicam a idosos institucionalizados. E não se aplicam a quem tem défice de vitamina D, sobretudo com níveis abaixo dos considerados suficientes.
Ou seja, o ensaio responde a uma pergunta concreta: vale a pena suplementar toda a gente, indiscriminadamente, para prevenir fraturas? A resposta é não. Não responde à pergunta sobre quem tem défice ou doença óssea.
Onde há benefício demonstrado
A síntese da evidência aponta na mesma direção. Em idosos não institucionalizados e sem défice, não há benefício da suplementação na prevenção de quedas e fraturas.
Já os idosos institucionalizados e com défice devem ser suplementados, isoladamente ou em associação com cálcio.
A diferença entre os dois cenários é a razão pela qual a resposta certa não é “todos devem tomar” nem “ninguém deve tomar”.
Faz sentido medir?
Doseamentos de rotina em pessoas saudáveis e sem fatores de risco não são recomendados de forma generalizada, precisamente porque um valor isolado raramente muda a conduta em quem está bem.
Faz sentido em situações específicas: doença óssea conhecida, má absorção intestinal, exposição solar muito reduzida, obesidade, uso prolongado de determinados medicamentos, ou institucionalização.
É uma conversa a ter com o médico e não uma decisão a tomar no corredor da farmácia.
O que fazer com esta informação
Duas conclusões práticas.
A primeira: se toma vitamina D por iniciativa própria, na expectativa de proteger os ossos, e não tem défice nem doença óssea, o maior ensaio disponível sugere que não está a obter esse benefício.
A segunda: se toma vitamina D prescrita, por défice documentado ou por osteoporose, nada nestes resultados justifica parar. São situações a que o ensaio expressamente não se aplica.
Entre as duas, fica a nota geral: o que tem evidência mais sólida para a saúde óssea depois dos 50 continua a ser o exercício com carga, a prevenção de quedas e uma alimentação com cálcio e proteína suficientes.











