Um apito agudo, um chiar de cigarras, um zumbido grave que parece vir de dentro da cabeça. Quem tem acufenos costuma dar-lhes uma descrição muito precisa, porque passa muitas horas a ouvi-los. Estima-se que a prevalência ronde os 18%, ou seja, perto de uma em cada cinco pessoas, e a probabilidade aumenta com a idade.
Tecnicamente, é a perceção de um som num ouvido, nos dois ou na cabeça, sem que exista qualquer fonte sonora exterior. Raramente traduz uma doença grave. Isso não faz dele um problema pequeno: um zumbido permanente estraga o sono, dificulta a concentração e é uma causa real de irritabilidade e de sofrimento, sobretudo quando ninguém à volta consegue perceber do que se está a falar.
De onde costuma vir
A associação mais frequente é com a perda de audição. Quando o ouvido deixa de captar determinadas frequências, o cérebro parece compensar a ausência gerando ele próprio um som. Não é imaginação e não é um defeito de caráter: é um circuito auditivo a funcionar mal na ausência de informação. Isto explica por que razão o zumbido melhora muitas vezes quando se corrige a audição.
Há causas mais banais e reversíveis que convém excluir logo à cabeça, e a primeira é uma simples rolha de cerúmen. Exposição prolongada a ruído, alguns medicamentos, tensão alta, problemas da articulação da mandíbula, tensão muscular no pescoço, cafeína e álcool em excesso também entram na conta. O stress e a falta de sono não causam acufenos, mas tornam-nos muito mais audíveis, o que produz um círculo desagradável: o zumbido tira o sono e a falta de sono aumenta o zumbido.
Nem todos os zumbidos são iguais para o médico. Há sinais que justificam consulta sem demorar: zumbido só num ouvido, zumbido pulsátil que acompanha os batimentos do coração, perda de audição súbita, tonturas associadas ou qualquer sintoma neurológico. Nestas situações o objetivo é excluir causas específicas, e não gerir o incómodo.
O que existe para tratar
Convém ser claro sobre uma coisa: não existe um medicamento que faça desaparecer os acufenos, e desconfiar de qualquer suplemento vendido com essa promessa é uma boa regra. O que existe, e resulta, é um conjunto de abordagens que reduzem a perceção do som e o desconforto que ele provoca.
A primeira é corrigir a audição, quando há perda associada. Um aparelho auditivo bem adaptado devolve os sons que faltavam e, em muitos casos, o zumbido passa para segundo plano. A segunda é a terapia de habituação, conhecida pela sigla inglesa TRT, que combina aconselhamento com a utilização de um gerador de som que mascara as frequências do zumbido até o cérebro deixar de lhe dar importância. A terceira é o trabalho sobre a reação emocional, através de terapia cognitivo-comportamental, com resultados demonstrados na qualidade de vida.
Há ainda medidas simples que ajudam quase sempre. Evitar o silêncio absoluto, sobretudo à noite, porque é aí que o zumbido fica mais alto: um ventilador, uma rádio muito baixa ou um som ambiente resolvem muitas noites. Proteger os ouvidos do ruído, rever a cafeína e o álcool e tratar o sono. O caminho começa no médico de família ou na otorrinolaringologia, com um exame audiométrico, e vale a pena dar esse passo em vez de assumir que não há nada a fazer.











